terça-feira, 16 de março de 2010

Docente da Universidade do Minho defende Robótica Educativa


Robótica traz algo que “falta muito: a auto-estima”

Manuel Filipe Costa, professor auxiliar na Universidade do Minho, interessa-se pela robótica educativa e pelos benefícios que esta traz aos jovens. Para ele, estes alunos podem não ter melhores notas que os restantes, mas sedimentam conhecimentos.

Os alunos, de facto, aprendem com a robótica?
Eu julgo que sim, sobretudo o aprender a fazer. Esta actividade leva a uma participação activa, porque os alunos querem, de facto, aprender ou porque o professor consegue incutir neles esse desejo. O aluno vai vivendo o que vai fazendo. Uma outra das vantagens da robótica é que é um tema muito apelativo, moderno, que há uns anos só se via nos filmes.

A prática de mexer num robô ajuda o aluno a ter bons resultados nos exames?
Esse processo vai ser condicionado de forma determinante por duas coisas: uma é pelo professor e outra o aluno. Provavelmente, esses alunos não conseguirão resultados nos exames significativamente melhores que os alunos que sejam apenas formados por um professor competente. Métodos há muitos. Mas se o aluno estiver na sala apenas para aprender a responder ao exame da semana seguinte, rapidamente os conhecimentos se perdem, porque ficam não suficientemente estabilizados para significar conhecimento efectivo.

Como deve começar a formação da robótica nas crianças?
A formação deve estar sobretudo na escola, ainda que se reconheça a importância das actividades “extra” sala de aula. Fazemos acções de formação para crianças dos 7 aos 10 anos, que foram campeãs nacionais de robótica. Começa muito cedo o interesse na robótica e eu tenho algumas dúvidas que a parte lúdica seja a única motivação.

Então o que mais motiva a criança?
O envolver-se numa coisa importante também traz uma motivação muito grande. Em crianças com 13 ou 14 anos, em fases complicadas no crescimento, a robótica pode ser não uma “tábua de salvação”, mas algo a que a criança se liga e que vai ser sólido na sua vida. O empenhamento das crianças nestas idades é muito forte e com resultados geralmente muito bons, mesmo até na atitude que eles têm perante a escola, perante a sala de aulas e até perante a vida.

Outro elemento motivador é o ser capaz de fazer uma coisa que só se vê nos filmes…
Não só é tentador como leva estes jovens a ter algo que falta muito: a auto-estima. Julgo que é nesse aspecto que está uma das maiores vantagens destas actividades, caso sejam bem enquadradas. É aqui que o papel do professor é fundamental. Não é preciso que o professor diga ao aluno como é que se faz, deve, sobretudo, criar condições para o aluno ser capaz de as descobrir por ele próprio. Isso exige auto-aprendizagem, empenhamento pessoal e exige do professor uma preparação prévia e uma flexibilidade muito grandes.

Como é que podemos avaliar os efeitos que a robótica provoca nos alunos?
Pela forma como eles se comportam em relação à escola e em relação à aprendizagem. Muitos dos alunos do ensino profissional, que em geral não estão muito motivados para a educação, acabam o curso profissional e querem ir trabalhar. Porém, muitos destes alunos envolvidos na robótica querem continuar. Têm ideias bem específicas e um objectivo bem determinado, como estudar Electrónica Industrial. As competências que vão adquirindo são muito importantes ao longo da vida, porque adquirem capacidade de resolver problemas, de responder ou reagir a situações que levam a um conhecimento prévio.

A robótica relaciona-se com as tecnologias, mas é uma ponte para outras disciplinas…
É uma área inteiramente interdisciplinar. A robótica obriga a pensar os problemas e a representá-los para encontrar uma solução. O que resulta daí são simulações, com uma intervenção da matemática e com o pensamento ideológico e crítico que é significativo. Podemos incluir a física, como um robô que trata da energia solar, ou a biologia, com aquele robô que é capaz de medir a acidez do azeite. Existem aplicações em todos os domínios do conhecimento, não só nas ciências naturais, mas também na psicologia, como usar um robô para ver as reacções que as pessoas têm perante certos instintos, de que forma é que esses instintos vão alterar a temperatura do corpo ou a forma como a pessoa se move.

A ideia de que a robótica é uma área de homens está ultrapassada?
Eu não vejo diferenças como as meninas se colocam perante estes problemas. Poderá notar-se enquanto crianças, já que as meninas não se relacionam com os robôs pela sua aparência. Mas, a partir dos 12 anos, não creio que seja esta a postura. Nas escolas existem grupos a trabalhar com robótica que têm raparigas ou são, exclusivamente, de raparigas. Muitas vezes dedicam-se à construção de robôs para dançar, mas existem outras que fazem questão de construir robôs para seguimento de pista ou de futebol. Houve um caso de um grupo com quatro raparigas e um rapaz, em que o rapaz queria fazer um robô de dança, mas as raparigas impuseram-se, porque queriam fazer um de futebol!

Mas não há uma proporção diferente entre homens e mulheres nas empresas do sector?
A passagem do 12º ano é mais complicada. Aliás, nas universidades, a mulher representa a maioria quer como aluno quer como investigador ou docente, mas quando se passa para fora do mundo académico e para as fábricas a situação é completamente diferente. A mulher não existe ou existe muito pouco. Falta saber se o problema é, exclusivamente, dos empregadores ou se é um mecanismo de defesa por parte da mulher.

A típica engenheira!



Com 20 anos de existência, Elisabete Fernandes não é médica ou juíza como o pai gostaria, nem foi para a NASA como sugeria o avô. Actualmente a frequentar a licenciatura em Engenharia Electrotécnica e de Computadores, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, tem uma “mente criativa”, como diz a amiga Sílvia Pereira, tanto que montou um robô chamado Garanhão das Sombras.

Nascida e criada na Trofa, é a mais velha de três irmãs de "forte personalidade", segundo o pai. Cada um dos cinco membros desta família têm o seu computador, numa casa onde a internet é grande amiga. A paixão da primogénita foi mais longe, levando-a a optar por um curso que a família considerava ser de homens. De facto, os próprios colegas chamam-lhe "a típica engenheira" por não se "empiriquitar" muito. Porém, a falta de vaidade não é impedimento para o atrevimento masculino: "Quando entro na faculdade e me sento à tua beira fica tudo a olhar, é um orgulho para mim", disse-lhe um dos muitos colegas do sexo oposto, numa licenciatura onde os elementos femininos quase se contam pelos dedos das mãos. É, inclusive, "raro o dia em que fale com raparigas". Usa a convivência com os homens a seu favor, sabendo o que estes dizem "por trás das mulheres", respondendo-lhes, não raras vezes, o que lhe vem à cabeça.

O gosto pela robótica não veio cedo, surgiu no ensino secundário, onde percebeu que um robô é muito mais - ou muito menos - que o que se vê nos filmes. Ruben Jesus, seu amigo há já alguns anos, define-a como "esquecida", porém persistente. A própria admite que há coisas que só faz porque tem de concluir determinada disciplina, essencial para terminar a licenciatura e seguir o seu sonho. Cátia Costa, amiga de longa data, garante que a futura engenheira nunca desiste de nada.

Não sendo adepta de nenhum clube, a Beta, como lhe chamam os amigos, lamenta o pouco tempo livre que possui, tempo esse que ocupa com a tradução de legendas de séries: “Não é nada seca”, diz. E embora seja fã das novas tecnologias e de tudo o que elas trazem, passa longe das redes sociais: “Não gosto porque não gosto!” Contudo, e como diz Sílvia Pereira, “a vida da Beta tem muito que se lhe diga!”

 
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